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Um Estudo em Sherlock - O Banqueiro Cego

Esse é o segundo artigo comparando a série Sherlock da BBC às histórias originais de Sir. Arthur Conan Doyle. O artigo anterior foi sobre S1:E1"Um Estudo em Rosa"

Texto traduzido diretamente de Oh someting arty por nossa colaboradora Liiz Buarque. 

Olá mais uma vez, fãs de Sherlock! Eu me diverti bastante com uma análise detalhada de "Um Estudo em Rosa" e eu espero que vocês também. Dessa vez, eu irei fazer as coisas um pouco diferentes. Vocês viram que o primeiro episódio, o qual teve de apresentar os personagens, e desenhou perfeitamente as cenas em que nos originais de Conan Doyle nos levam ao nosso primeiro encontro com Holmes e Watson, Moffat e companhia usaram grande parte dos diálogos quase que exatamente iguais aos originais naquelas cenas, e eu  me diverti muitíssimo colocando esses diálogos lado a lado.



Esse segundo episódio, no entanto, nos mergulha no mundo de Sherlock em ação: as apresentações ficam no passado e agora é hora para a história!  Os elementos da história desse episódio são os que Steve Thompson, o autor da vez, retirou dos originais e portanto são nesses elementos que eu me focarei. Primeiro eu vou olhar para as fontes da trama em sentido amplo, e em seguida, para as raízes do código em pichação, no coração do episódio.

Então, aqui vamos nós, mais uma vez.

I - Uma história super velha novinha em folha.

Thompson tomou uma decisão inteligente na elaboração deste episódio: ele escreveu uma história nova, mas baseada no antigo e mais comum cânone de Conan Doyle.

Aqui está o que eu quero dizer. Se você tivesse que resumir a trama central de "O Banqueiro Cego", certamente surgiria com isso:

"Soon Lin Yao, anteriormente envolvida com Black Lotus Tong na China, foge para a Inglaterra  mas seu irmão a localiza - primeiramente enviando para ela uma ameaça de morte em formato de pichação."
Correto? Você poderia adicionar Van Coon e Lukis, mas eu vou me ater à Soon Lin por questões de simplicidade. Agora, você poderia fazer uma versão genérica dessa sentença, que funcionaria assim:

[Boa pessoa], anteriormente envolvida com[gangue perigosa] em [país estrangeiro], foge para a Inglaterra, mas [alifiado da gangue] localiza [boa pessoa]. (Opcional: [afiliado da gangue] envia para [boa pessoa] uma ameaça em formato de código.)

E então, senhoras e senhores, aqui temos o esboço de "O Mistério do Vale Boscombe", "As Cinco Sementes de Laranja", "Os Dançarinos", "O Vale do Terror", "A aventura do Círculo Vermelho" e muitos, muitos outros. Fragmentos dessa história aparecem em todos os lugares do cânone: o acerto de contas aparece em, entre tantos outros, O Signo dos Quatro, a surpreendente aparição de um velho  conhecido (em um contexto muito diferente) nos leva até "O Solteirão Nobre" e os recorrentes avisos pintados para assombrar um personagem se devem a "Um Estudo em Vermelho".

Ao escrever seu episódio em torno dessas velhas perífrases de Holmes, Thompson ancorou a sua nova história muito efetivamente no velho espírito dos originais sobre o detetive. Eu não quero falar muito sobre todas essas histórias de Conan Doyle para não estragar a surpresa de vocês ao lê-las, mas eu gostaria muito de olhar mais detalhadamente para duas delas: "Os Dançarinos" e "O Vale do Terror"

II - "Eu estou familiarizado com todas essas formas secretas de escrita..."

Assim diz Sherlock Holmes em "Os Dançarinos". O próprio Moffat chamou minha atenção para esse conto a partir de um tweet:

"Para as pessoas que estavam perguntando: Sherlock de hoje à noite (escrito por Stephen Thompson, dirigido por Euros Lyn) é ligeiramente baseado em "Os dançarinos"

"Os Dançarinos" é provavelmente a aventura cujo enredo mais se aproxima da frase a seguir:

[Boa pessoa], anteriormente envolvida com [gangue perigosa] em [país estrangeiro], foge para a Inglaterra, [afiliado da gangue] localiza [boa pessoa].
Se nós ligarmos "Os Dançarinos", isso nos leva a:

"Elsie Cubitt, anteriormente envolvida com "The Joint", em Chicago, EUA, foge para a Inglaterra, mas seu ex-noivo a localiza - primeiramente enviando à ela uma ameaça de morte por meio de desenhos codificados feitos à giz."

Esses desenhos feitos à giz são, obviamente, desenhos de dançarinos. Eles realmente foram desenhados na história original pelo próprio Doyle, desse jeito:

Em seu relato sobre eles, Holmes demarca:

"Tenho aqui diante de mim estas singulares produções, das quais poderíamos rir, não tivessem demonstrado que foram as precursoras de tão terrível tragédia. Estou bastante familiarizado com todas as formas de escrita secreta, e sou eu mesmo o autor de uma insignificante monografia sobre a matéria, na qual analiso cento e sessenta criptogramas separados, mas confesso que isto é completamente novo para mim. O objetivo daqueles que inventaram o sistema aparentemente foi esconder que estes caracteres carregam uma mensagem, passando a idéia que são meros esboços aleatórios de crianças."
O homem que desenhou estes símbolos mais tarde confirma,

"... A escrita [...] passaria como rabisco de uma criança a menos que tivesse chave para decifrá-la"


Esses dançarinos têm muito em comum com a pichação amarela de Tong. Em ambos os casos, o código não é obviamente um código: parecem mais desenhos aleatórios ou vandalismo. Bem como, é um código multi-uso que a gangue usa para todo o tipo de comunicação, ao invés de apenas ameaças. (Nesse aspecto, é diferente de "As Cinco Sementes de Laranja", no qual as sementes são especificamente uma ameaça.)

Há até mesmo uma bonita referência visual ao dançarinos em um momento do episódio, quando nós olhamos para as notas sobre a cifra de Tong, por cima do ombro de Sherlock.
Dê uma olhada para os bonecos palito na folha que ele está segurando.


Aqui há uma grande diferença: cada dançarino equivale a uma letra específica. Isso é bem diferente do complexo sistema que Tong usa: numerais suzhou referindo-se à paginas de Londres de A a Z. De onde veio essa parte?

Daí, nós nos viramos para a longa metragem do romance de Holmes: O Vale do Terror. Eu mencionei essa aventura, mais cedo na minha lista de "histórias de passado sombrio". Eu não vou dar um resumo [boa pessoa] [gangue perigosa] para esta - a história é bem complicada e boa demais para um spoiler - e, como se vê, o código secreto não tem nada a ver com o enredo de [gangue perigosa]. Aparece bem no início do livro, na seção característica antes da trama, onde Conan Doyle mostra os talentos de Holmes. Quase todas as histórias de Holmes começam com uma cena assim, geralmente com Holmes "lendo" alguém ou alguma coisa. Em "O Banqueiro Cego" , essa é a sequência na qual Sherlock deduz as recentes viagens de Sebastian a partir de seu relógio de pulso. Em "O Vale do Terror",  no entanto o detetive de Conan Doyle quebra o código.

O capítulo 1 de
"O Vale do Terror", vemos Holmes receber uma breve e enigmática carta de um de seus contatos criminais - "O aviso" pelo qual o cápitulo foi nomeado. O pedaço de papel traz a seguinte mensagem:

534 C2  13 127 36 31 4 17 21 41 [etc...]


O análogo em Sherlock é o muro coberto de pichações que John fotografa na linha do trem:


Ou, em outras palavras (er, números):

112-1 103-75 36-37 70-95 [etc...]

Aqui está a conversa que Holmes e Watson têm em O Vale do Terror. Holmes está em um estado mais amargo, aqui  - na verdade mais como o Sherlock da BBC que o habitual:

Conan Doyle:
Holmes: "Essa é claramente uma referência à palavras nas páginas de algum livro. Enquanto eu não souber qual é esse livro e qual é essa página, não poderei fazer nada."
Watson:"Então, por que ele não indicou o título do livro?"
Holmes: "Sua perspicácia natural, caro Watson, assim como a astúcia inata que é a alegria de seus amigos, certamente o proibiria de incluir o código e a mensagem no mesmo envelope. Se o seu bilhete se enganasse de destinatário, você estaria perdido."

Em O Banqueiro Cego depois de Soon Lin revelar que Tong usa um livro-código, Sherlock e John têm uma conversa similar:

Thompson:
Sherlock: "Então os números são referências."
John: "Para livros"
Sherlock: "Para páginas específicas, e palavras específicas nessas páginas"
John: "Certo, então, quinze e um, significam..."
Sherlock: "Vá até a página quinze, a primeira palavra que você lê."
John: Certo, qual é a mensagem?
Sherlock: "Depende do livro. Essa é a astúcia de um livro-código"

Em O Vale, o contato secreto de Holmes é interrompido antes que ele consiga enviar o nome do livro em uma correspondência separada, então Holmes tem que descobrir por si só. Ele rapidamente declara que 534 é uma página, que "C2" indica 'coluna 2", e que o livro deve ser bastante comum - uma vez que seu contato pensou em enviar a Holmes o nome do livro presumindo que o mesmo já tivesse um exemplar. Em outras palavras:

Conan Doyle:
"Nossa busca é resumida a livros padronizados que supõe-se que qualquer um possua."

Thompson:
Sherlock(falando consigo mesmo): "Um livro que todo mundo teria...."

Holmes considera mas logo elimina a possibilidade de ser a Bíblia (pelo motivo de existirem inúmeras edições, todas diferentes uma da outra) o dicionário (vocabulário artificialmente limitado em qualquer página dada), e mais alguns livros. Finalmente, ele chega ao "Almanaque de Whitaker", um livro de referência anual que ainda é publicado no Reino Unido, atualmente.
Atendo-se ao trabalho, ainda com o seu humor notávelmente sarcástico, isso é o que ele descobre:

Conan Doyle:
"Aqui está a página 534, segunda coluna, que apresenta um artigo substancial sobre o comércio e os recursos da Índia britânica. Tome nota das palavras, Watson. A décima terceira é marata. Receio que não seja um início muito auspicioso. A centésima vigésima sétima é governo, que, pelo menos, tem sentido, apesar de algo inconcludente, tanto para nós como para o professor Moriarty. Tentemos de novo. Que há de comum entre marata e governo? Ora essa! O que vem a seguir é cerdas de porco. Estamos perdidos, amigo Watson. Nada feito."

Comparando o progresso de Sherlock em O Banqueiro Cego, uma vez que ele descobre que está procurando por um livro comum. Ele vai até sua estante de livros e escolhe a Bíblia , um dicionário e um velho livro de contexto médico. (Dois de três usados em "O Vale do Terror") Buscando por "15-1", décima quinta página, primeira palavra, ele encontra: "Eu" na Bíblia, "Adicionar" no dicionário, e, o melhor de todos "narinas" no livro médico. Cerdas de porco, de fato! No final, as coisas funcionam nas duas versões: O Holmes de "O Vale"  percebe que seu contato deve estar usando um Whitaker do ano anterior. Enquanto que Holmes de "O Banqueiro Cego" esbarra num par de turistas segurando um guia Londres - de A a Z, e tudo se encaixa.


Então é assim que Thompson criou o código em "O Banqueiro Cego": ele fez os dançarinos se encontrarem com o Almaque de Whitaker! É um ótimo exemplo de como os autores de Sherlock teceram novas histórias a partir de segmentos dos originais de Conan Doyle.

E você pode usar isso como uma pista para a sua própria lista de "histórias com sementes": se você voltar e ler "Os Dançarinos" e "O Vale do Terror", você descobrirá que a tatuagem de Black Lotus, a bala disparada através da janela aberta de Van Coon, e até mesmo o papel de Moriarty como cérebro assassino do Reino Unido - todos esses elementos da trama foram retirados dos originais e implantados nessa nova adaptação de um jeito claramente inteligente e original.

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